Instituto Soja Livre

Soja Livre completa dez anos na defesa da soja convencional

Instituto agrega produtores, Embrapa, tradings e empresas e começou em 2010, como um programa da Aprosoja-MT. Hoje, sua atuação se expandiu para todo o Brasil

O intuito de garantir aos produtores de soja a liberdade para poderem escolher entre soja convencional e soja transgênica fecha um ciclo de dez anos em 2020. Iniciado como um projeto da Aprosoja Mato Grosso e Embrapa, o Instituto Soja Livre formaliza o propósito de garantir pesquisa, tecnologia e mercado para que sojicultores brasileiros tenham, de fato, direito de opção.

Os organismos geneticamente modificados (OGMs) entraram no mercado brasileiro em 2003, e a estratégia agressiva de venda da multinacional detentora da patente deixou os agricultores apreensivos. “As ações de mercado da empresa eram de guerra, e o produtor ficou acuado, pois a produtividade da semente transgênica ainda não era conhecida”, lembra Roque Ferreti, diretor administrativo do Instituto Soja Livre.

Com o passar dos anos, optar pela soja convencional se tornou uma ação de resistência e se tornou uma bandeira defendida pela Aprosoja-MT e pela Embrapa. Em seguida, o então “programa” Soja Livre recebeu a participação da Associação Brasileira dos Produtores de Grãos Não Geneticamente Modificados (Abrange) e de tradings.

“O movimento foi uma forma de discutirmos a cobrança de royalties, porque não havia diálogo a respeito de valores. Queríamos ser livres para plantar o que quiséssemos. Agregando novos parceiros, o programa começou a encorpar e a ter mais relevância”, diz Roger Augusto Rodrigues, produtor rural e um dos fundadores do programa Soja Livre.

O diretor técnico do Instituto Soja Livre, pesquisador da Embrapa Rodrigo Brogin, lembra que com o crescimento da área de soja transgênica alguns produtores rurais não verificavam lançamentos de novas variedades de cultivares convencionais.

“Na época, a soja convencional passou a ser tratada como algo ultrapassado. Este foi um momento importante para a Embrapa, pois tivemos que ‘correr’ para fazer o melhoramento e entregar materiais mais competitivos. Conseguimos desenvolver cultivares novas e colocar no mercado”, afirmou.

Para o pesquisador Ivan Paghi, também fundador do programa, uma das metas mais importantes do Soja Livre era a mobilização para fomentar a continuidade das pesquisas e aproximar os elos da cadeia. Entre conquistas marcantes, ele cita a rastreabilidade e a certificação. “A Abrange e a ABNT criaram a primeira norma de produção de soja não transgênica, e isso foi fundamental”, relembra.

Fundação do Instituto Soja Livre, em 2017.

Em 2017, o programa se transformou no Instituto Soja Livre, uma associação autônoma, com o objetivo de ampliar o trabalho e dar transparência às ações. O movimento cresceu e tornou-se de abrangência nacional e até internacional. Para o presidente Endrigo Dalcin, que à época presidia a Aprosoja-MT, a trajetória até o momento foi de extrema importância.

“Mantivemos a soja convencional no campo de visão do produtor rural, mostrando que há opção do que plantar. A gente sabe das dificuldades do mercado, mas o papel fundamental do Soja Livre é apoiar e dar suporte a quem quer plantar convencional, seja produtor ou empresas. Hoje, somos referência para informações técnicas e de mercado”, observa.

A diminuição da área de soja convencional no Brasil tornou os agricultores em especialistas na cultivar. Hoje, em Mato Grosso, maior estado produtor de grãos do País, a área representa 8% do total cultivado. “O mercado se afunilou a um nicho, de alta qualidade e remunerado por isso. Atualmente, o Instituto Soja Livre tem uma agenda importante de conversações com parceiros internacionais, suporte técnico e associados ‘de peso’”, diz Dalcin.

O empresário Joel Luciano Callegaro, da Campo Real de Querência (MT), associou-se ao Instituto Soja Livre para divulgar a empresa no mercado. “Vi que grandes empresas estavam participando e quis mostrar o meu negócio também. Acredito que a ideia é resgatar esse mercado”, diz. Apesar da diminuição da área plantada com soja convencional, as tecnologias vêm sendo aprimoradas e se tornou um nicho de mercado para o agricultor.

O ISL trabalha em conjunto com produtores rurais e empresários na busca de uma melhor remuneração para a soja convencional, com um pagamento de prêmio aos agricultores. Um exemplo é a parceria com a rede de supermercado alemã LIDL, a maior da Europa, como forma de fomentar o cultivo no Brasil. O programa é gerenciado pelo Instituto Soja Livre, Fundação Pró-Terra e Food Chain ID.

O instituto agora tem como foco o mercado, mostrando as vantagens do cultivo convencional para o produtor e também apresentando o produto para o mercado convencional que busca cada vez mais sustentabilidade.

“Hoje, temos cultivares com ciclos mais curtos, mas precisamos ainda de melhoramento – essa busca não para. A missão primeira do Soja Livre, que é manter a tecnologia viva, está sendo cumprida”, afirma Brogin.

“É um nicho de mercado para agricultores especialistas. O que aumenta a produtividade é a genética da cultivar, o que pode ser feito nas convencionais também. Precisamos apoiar a pesquisa, a Embrapa, e dar a opção para que o produtor rural pense no plantio de convencional como uma decisão estratégica comercial”, acredita Ivan Paghi.

Os momentos difíceis de agregação de pessoas e empresas para um trabalho comum ficou para trás. O diretor Roque Ferretti lembra que “colocar todos em um ‘saco só’ era complicado, e demorou alguns anos para todos entenderem que o objetivo era comum”.

Para ele, o Instituto existe graças à compreensão dos que ficaram e é forte pelo trabalho em equipe. “O Instituto Soja Livre está muito sólido e bem estruturado. Somos referência e seguimos firmes, com objetivos claros traçados e sempre agregando para proteger este nicho de mercado e termos liberdade de escolha”, destaca.